Fotografia em colódio e uma bicicleta: a colódio-bike :)

Roger Fenton Photographic Van 1854
O assistente Marcus Sparling e a “Photographic Van”, 1854, de Roger Fenton (Inglês, 1819-69). Cópia em papel salgado a partir de negativo de colódio úmido. Cortesia do Victoria and Albert Museum.
O laboratório móvel de placa úmida de colódio montado sobre a bicicleta!
O laboratório móvel de placa úmida de colódio montado sobre a bicicleta do Roger Sassaki!

O meu “xará” Roger Fenton, lá do século 19, já sabia das dificuldades de se fazer uma saída fotográfica por aí com placa úmida de colódio. Como a placa fotográfica precisa ser sensibilizada e revelada na hora em que for usada, é preciso carregar um mini laboratório consigo. Para complicar, na época não se ampliava fotos. O negativo tinha que ser feito do tamanho da cópia final desejada. Aumentando o tamanho do negativo, aumenta o tamanho de todo o equipamento de laboratório! Para ter uma idéia, meu kit básico para se fotografar em colódio é uma lista de pelo menos 30 itens diversos.

Quem acompanha este blog, já viu que eu já me aventurei por aí com o colódio em Paraty, Nazaré Paulista e até Ilha do Cardoso! Minha experiência nessas situações foi que dá pra fazer fotos externas sem muita estrutura. O principal é uma boa caixa de papelão convertida em Caixa Escura. Porém o grande problema é a quantidade enorme de coisas espalhadas pelo chão e o tempo que leva para recolher tudo e se deslocar para outro lugar.

A idéia de montar um laboratório móvel em uma bicicleta foi crescendo ao longo de alguns meses até eu ter a coragem de comprar uma bicicleta cargueira, dessas de padaria e açougue, e dar início a este projeto esquisito. A principal vantagem da bicicleta é seu acesso misto, ela pode circular por áreas de pedestres e de veículos. Além de ser fácil de parar em qualquer lugar, o que em SP é um grande trunfo. A bicicleta cargueira é dessas que tem um grande bagageiro frontal com um ótipo “pé” que deixa a bicicleta estável quando estacionada. É uma bancada portátil e pronta para pedalar!

A parte principal do colódio-bike é a caixa escura, onde acontece toda a preparação da placa fotográfica e sua revelação. Até onde sei, o modelo que construí não é exatamente o que costuma ser feito. Geralmente a caixa é feita para ser usada na posição vertical, a minha é na posição horizontal. Pensei assim para ficar mais estável de carregar na bike ser rápida de abrir e montar. Sua dimensão foi pensada em ser compatível com placas de até 25x30cm, apesar de ainda não ter usado esse tamanho nela. A altura total, quando aberta e colocada em cima da bicicleta, é compatível com minha altura, para poder trabalhar confortavelmente em pé sem me curvar.

A caixa escura quando fechada permite o deslocamento fácil com a bicicleta, que pode entrar onde um carro não pode :) (foto de Ligia Minami)
A caixa escura quando fechada permite o deslocamento fácil com a bicicleta, que pode entrar onde um carro não pode 🙂 (foto de Ligia Minami)
A caixa fechada para transporte. Vira uma maleta razoavelmente leve.
A caixa fechada para transporte. Vira uma maleta razoavelmente leve.

Construída inteira em madeira compensada, seu interior foi pintado em tinta amarela clara. Isso permite que o interior fique bem mais luminoso e fácil de achar as coisas. Minhas caixas anteriores eram escuras por dentro e era impossível de ver frascos e tais. Aumentava bastante a chance de derrubar algo por esbarrão. A iluminação vem de uma luzinha vermelha de bicicleta presa na parte superior. Por sinal, a mesma luz que uso na bicicleta 🙂

Vista do laboratório por dentro com a bicicleta estacionada.
Vista do laboratório por dentro com a bicicleta estacionada.
Pintando as partes de madeira. Sobre uma base branca, foi usado uma tinta amarela para deixar o interior mais claro, mesmo com a luz vermelha.
Pintando as partes de madeira. Sobre uma base branca, foi usado uma tinta amarela para deixar o interior mais claro, mesmo com a luz vermelha.
Peças de madeira dos vários encaixes. Foram lixadas e receberam uma camada de "stain".
Peças de madeira dos vários encaixes. Foram lixadas e receberam uma camada de “stain”.
Detalha dos bra os que suportam o tecido preto.
Detalha dos bra
os que suportam o tecido preto.
Uma imagem do interior da caixa.
Uma imagem do interior da caixa.
Mais tarde foi adicionado uma prateleira para liberar mais espaço embaixo.
Mais tarde foi adicionado uma prateleira para liberar mais espaço embaixo.

O tecido escuro que veda tudo é um nylon “rip-stop” fino, desses de fazer agasalho. Ele é bem leve e aguenta bem água. Usei duas camadas, uma preta e uma vermelha na esperança de deixá-lo bem opaco à luz. Porém depois de feito, percebi logo no ensolarado dia seguinte, que a luz passa por ambas as camadas. Resolvi ir em frente e fazer o teste de estréia da caixa ainda na Casa Ranzini e constatei que a luz que passa pelo tecido não vela o colódio sensibilizado! Eba! Acredito que por ser um nylon “esportivo” ele deve ter uma filtragem UV. Melhor impossível, a caixa fica iluminada por uma luz que não vela a placa. Obrigado a Simone Wicca pelo tempo e dedicação de modelar e costurar todo o tecido!

Planejando o molde do tecido com papel. A madeira ainda não foi pintada.
Planejando o molde do tecido com papel. A madeira ainda não foi pintada.
Ajustando o tecido para ser costurado.
Ajustando o tecido para ser costurado.
Fixando o tecido na estrutura de madeira.
Fixando o tecido na estrutura de madeira.

No bagageiro traseiro eu quero fazer uma outra caixa para acondicionar os químicos e alguns equipamentos de forma que eu possa usar tudo sem colocar nada no chão. Ainda não tive tempo pra fazer isso e tenho usado uma caixa de ferramentas de plástico. Não é o ideal mas por enquanto é o que temos.

A bagunça da caixa traseira. (foto de Ligia Minami)
A bagunça da caixa traseira. (foto de Ligia Minami)

O legal é que a Caixa escura pode ser usada também fora da bicicleta, sobre uma mesa. Inclusive já usamos durante nossa apresentação na Virada Cultural do Sesc e em sessões de retrato na própria Casa Ranzini.

Fernando Fortes Fazendo um retrato de Gerson Tung.
Fernando Fortes fazendo um retrato de Gerson Tung.

Já fiz algumas saídas com o colódio-bike e, posso dizer, é muito legal! Dá trabalho pra preparar a saída, é pesada pra pedalar, leva tempo embaixo do sol mas vale muito a pena. É muito bom poder sair do laboratório e fotografar pela cidade. Pedalar e ir escolhendo a paisagem e a cena. Fazer a foto e ver o resultado na hora!

Quero agradecer aos amigos que ajudaram nesses passos importantíssimos: Waldir Salvadore, Fernando Fortes, Anna Silveira, Paula Martinelli, Lígia Minami, Lúcio Libanori e Dartagnan.

Abraços!

Roger H. Sassaki

Veja algumas saídas já feitas. Clique nas imagens para vê-las maior.

Saída de estréia

Pelas ruas da Liberdade aproveitando a ciclofaixa do domingo. (foto de Simone Wicca)
Pelas ruas da Liberdade aproveitando a ciclofaixa do domingo. (foto de Simone Wicca)
Ao lado da Catedral da Sé para estrear o colódio-bike (foto de Simone Wicca)
Ao lado da Catedral da Sé para estrear o colódio-bike (foto de Simone Wicca)
(foto de Simone Wicca)
(foto de Simone Wicca)
Fixando! (foto de Simone Wicca)
Fixando! (foto de Simone Wicca)
A imagem já fixada! (foto de Simone Wicca)
A imagem já fixada! (foto de Simone Wicca)
Tã-dãã! (foto de Simone Wicca)
Tã-dãã! (foto de Simone Wicca)

Minhocão e Praça Roosevelt

Minhocão de domingo é ótimo pra fotografar e andar de bicicleta!
Minhocão de domingo é ótimo pra fotografar e andar de bicicleta!
A camera "meia-placa" e o lab preparado pra uso.
A camera “meia-placa” e o lab preparado pra uso.
Um grupo de alunos de fotografia que estava passando se interessa pelo processo.
Um grupo de alunos de fotografia que estava passando se interessa pelo processo.
A imagem sendo fixada.
A imagem sendo fixada.
A imagem final da Praça Roosevelt.
A imagem final da Praça Roosevelt.

Rua 15 de Novembro e Palácio das Indústrias

Preparando o lab com Lúcio Libanori (foto de Waldir Salvadore)
Preparando o lab com Lúcio Libanori (foto de Waldir Salvadore)
Na caixa de trás vai tudo que é frágil (foto de Waldir Salvadore)
Na caixa de trás vai tudo que é frágil (foto de Waldir Salvadore)
(foto de Waldir Salvadore)
(foto de Waldir Salvadore)
Um ambrótipo na caixa de transporte. (foto de Waldir Salvadore)
Um ambrótipo na caixa de transporte. (foto de Waldir Salvadore)
No fixador.
No fixador.
A bicicleta no viaduto que circunda o Palácio das Indústrias. (foto de Waldir Salvadore)
A bicicleta no viaduto que circunda o Palácio das Indústrias. (foto de Waldir Salvadore)
Fotos prontas na hora!
Fotos prontas na hora!
Palácio das Indústrias.
Palácio das Indústrias.
(foto de Waldir Salvadore)
(foto de Waldir Salvadore)
Nada como fotografar ao ar livre. Nem é tanta tralha.
Nada como fotografar ao ar livre. Nem é tanta tralha.
Grandes assistentes Waldir Salvadore e Lúcio Libanori.
Grandes assistentes Waldir Salvadore e Lúcio Libanori.

Palácio das Indústrias

(foto de Lígia Minami)
(foto de Lígia Minami)
(foto de Lígia Minami)
(foto de Lígia Minami)
Dosando o Revelador. (foto de Lígia Minami)
Dosando o Revelador. (foto de Lígia Minami)
(foto de Lígia Minami)
(foto de Lígia Minami)
Indo… (foto de Lígia Minami)
Indo… (foto de Lígia Minami)
Eu e o Fernando Fortes retornando com o laboratório móvel para nossa base na Casa Ranzini. (foto de Lígia Minami)
Eu e o Fernando Fortes retornando com o laboratório móvel para nossa base na Casa Ranzini. (foto de Lígia Minami)
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One thought

  1. Oi Roger, só tenho uma coisa a dizer, “ducaralho”! Parabéns por tudo que está fazendo, você se tornou meu ídolo, kkkkk. Faz muita coisa do que quero fazer um dia. Grande abraço, André Luppi

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