Cidade de São Paulo (Vista tirada do Paredão do Piques) 1862-2017 – Militão

Roger Sassaki/ maio 8, 2017/ Projetos/ 4 comments

Cidade de São Paulo (Vista tirada do Paredão do Piques) 1862.<br />De Militão A. de Azevedo.

Cidade de São Paulo (Vista tirada do Paredão do Piques) 1862.
De Militão A. de Azevedo.

Mais de um ano depois da primeira foto feita para meu projeto (ainda sem nome) de conversa com a obra de Militão Augusto de Azevedo, consigo sair mais uma vez para produzir uma nova imagem.

– Leia o artigo anterior “ir para: Refazer é criar? Militão novamente” para saber mais sobre o projeto.

Ainda sinto que estou apenas ensaiando os procedimentos e metodologia. Neste longo hiato, acabei ficando ocupado com “todas as outras coisas da vida” mas consegui pensar um pouco sobre ajustes no projeto. Esta saída serviu para testar algumas coisinhas. Com a idéia de ter um “diário de trabalho”, agora anoto tudo num caderninho: equipamentos, formulas, fotometria, processamento, imagens feitas e anotações diversas sobre o trabalho do dia. Ainda preciso fazer um registro mais organizado de todas as coisas que levo na bicicleta. Outra coisa que testei foi fazer uma captura simultânea em vídeo durante o tempo de exposição das imagens.

A vista escolhida desta vez é a da página 49 do Álbum Comparativo de Militão. É a cidade vista de cima do Paredão do Piques, hoje Rua Xavier de Toledo, em direção ao Largo São Francisco. Nos planos próximos, é possível ver o obelisco do Largo da Memória e a descida para a Ponte do Lorena, que hoje é um acesso para o Terminal Bandeira. O Obelisco do Piques ainda esta lá e o eixo da rua que vem debaixo da camera até a subida da Rua José Bonifácio também é visível. Aliás, bom lembrar que o obelisco deve ser o monumento mais antigo da cidade, de 1814. Ele marcava uma fonte de água potável na então entrada da cidade.

Fiz, neste dia 19/04/2017, três imagens da cena, capturadas aproximadamente entre 12h e 15h de uma quarta-feira comum. A captura foi feita em Negativo de placa úmida de colódio numa placa de vidro de 20x25cm. Esta é a minha suposição inicial sobre o tamanho dos negativos originais que Militão produziu em 1862. A imagem final impressa por contato é um pouco menor, cerca de 22x14cm. Estou partindo da suposição que Militão “cortava” a imagem um pouco menor que o tamanho do negativo para evitar as marcas de processamento que normalmente aparecem nas bordas do negativo (as imagens de Militão tem as bordas muito limpas para esta técnica).

Flagra da Sara de Santis que estava passando de ônibus pela Rua col. Xavier de Toledo e nos avistou com o laboratório montado.

Das três fotografias que fiz, talvez a segunda seja a “melhor” em termos de execução. Somente na terceira captura que lembrei de fazer a captura simultânea em vídeo. Mas a foto saiu com uma mancha que só percebi na volta ao laboratório. De qualquer forma, a experiência foi válida e acrescentou bastante informações para minhas reflexões. Aliás, desde a saída e caminhada carregando os equipamentos e escolhendo o lugar, ângulo, vendo se a luz deixa ou não eu ter a foto que quero, tudo isso se soma à reflexão sobre aqueles dias passados em 1862.

Uma mudança a ser tentada é uma objetiva diferente, de ângulo mais fechado. A bem da verdade, fui vítima do meu esquecimento, já na que a foto que fiz uma ano antes na Rua Roberto Simonsen percebi qual lente deveria usar. Neste caso, usei uma 213mm e devo tentar a 300mm na próxima.

Dando banho de glicerina para manter o colódio úmido até a volta ao laboratório. Foto de Maurício Sapata.

A seguir, mostro a reprodução (não muito boa) do negativo obtido na terceira fotografia. Ele foi intensificado quando voltei ao laboratório. Esse procedimento é utilizado para aumentar a densidade do negativo quando este não a tem diretamente na primeira revelação. Os processos de cópia da época exigem um negativo mais denso. Porém, não tenho como saber por hora, se o Militão fazia este procedimento pois há algumas variantes e até mesmo a não necessidade se ele já obtinha negativos suficientemente densos de primeira.

Negativo de Placa úmida de Colódio.

Ainda não tive tempo de fazer as cópias por contato em algum processo químico como Papel Salgado ou Albúmen, então por hora, inverti digitalmente a imagem para vê-la positiva.

Inversão digital do negativo.

Pode ser difícil de acreditar, mas essa cena é a mesma do início deste artigo, a vista da cidade feita por Militão em 1862. Como mencionei, acredito que Militão não utilizava toda a imagem do negativo, ele eliminava uma certa margem nas laterais e aproveitava a área mais central da matriz, onde há menos marcas de processamento. Mesmo assim, creio que a cena ficou ainda um tanto mais “aberta” que deveria. Por isso minha idéia de tentar a objetiva de ângulo mais fechado. Assim, recortei um pouco a imagem para se igualar mais com a imagem de 1862.

Recorte da imagem. Inversão digital do negativo.

Olhando um pouco para esta imagem, em relação a de 1862, é possível identificar o obelisco no lado esquerdo totalmente encoberto na sombra de uma grande árvore. Do pouco que explorei das locações fotografadas, a maioria terá essa mesma característica: árvores cobrindo parte parte das vistas. Curioso olhar para a cidade de 1862 e perceber que era uma cidade sem muitas árvores. Não sei se pela recém urbanização ou por uma busca da sensação de progresso pela eliminação do “mato”.

Talvez o mais marcante seja o estreitamento da vista da cidade. A linha do horizonte se escondeu atrás das folhagens e construções. Não vemos mais o Lgo. São Francisco à direita nem a torre de uma igreja à esquerda. A cidade não cabe mais neste enquadramento.

Mas e as pessoas na foto? É quarta-feira, dia de trabalho no centro de SP, por volta das 15h, conexão entre metrô e terminal de ônibus. Temos algumas poucas pessoas sentadas à sombra da árvore e mais algumas ao fundo, poucas a mais que na foto de 1862. É aí que entra a captura simultânea em vídeo.

Quantas pessoas passam pela cena nos quinze segundos de contagem da exposição da placa? São várias pessoas apagadas da memória fotográfica, selecionadas pelas limitações do aparelho. Quem são as pessoas que ficaram na imagem? Ao olharmos a foto, essas pessoas registradas são suficientes para sabermos da “realidade” deste momento ou precisamos de todas as outras que não conseguiram ser registradas. Ao olharmos as imagens de São Paulo feitas por Militão em 1862 estamos sem alguma informação que não foi registrada? Será que existiram pessoas que foram apagadas e poderiam nos dar uma outra leitura daquele dia no século 19?

A investigação continua.

(obrigado pela assistência de Maurício Sapata)

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